Há eleições que escolhem presidentes. Há outras que escolhem caminhos. E há aquelas em que uma sociedade precisa decidir que tipo de democracia pretende entregar às próximas gerações.
Talvez seja esse o tamanho do desafio que o
Brasil terá pela frente em 2026.
Não se trata de afirmar que toda a direita
brasileira é autoritária. Não é. A democracia precisa da direita, da esquerda,
do centro e, principalmente, da divergência. O problema está quando parte da
classe política, de setores empresariais e de grupos economicamente
privilegiados passa a tratar como aceitáveis comportamentos que ameaçam as
instituições e banalizam a própria democracia.
O perigo está justamente aí: na
normalização do absurdo.
O Brasil vem assistindo há anos à deterioração
do debate político. Desde 2018, esse processo ganhou uma dimensão ainda mais
preocupante. A disputa por projetos de país foi, em muitos momentos,
substituída por ataques pessoais, desinformação, intolerância e pela
transformação do adversário em inimigo.
E a mentira, quando repetida exaustivamente,
deixa de ser percebida apenas como mentira. Ela começa a ocupar o espaço da
dúvida.
É nesse momento que o jornalismo precisa
cumprir seu papel.
Entrevistas, sabatinas e debates eleitorais
não podem ser apenas espetáculos de televisão. O eleitor precisa saber se
aquilo que está sendo dito corresponde aos fatos. Quando uma liderança política
apresenta um número, uma acusação ou uma informação objetiva, cabe ao
jornalismo verificar, contextualizar e, quando necessário, corrigir
imediatamente.
A mentira pode dar a volta ao país em minutos.
A verdade, muitas vezes, chega atrasada.
Por isso, o fact-checking não deveria aparecer
apenas no dia seguinte. Em uma eleição, a checagem precisa acompanhar o
discurso político praticamente em tempo real. Não para favorecer candidatos,
mas para proteger o direito do eleitor de decidir com informação.
É nesse ambiente que chegamos à eleição de
2026.
O governo Lula apresenta resultados que
utiliza como argumentos para defender sua continuidade: redução do desemprego,
inflação em patamares mais baixos, resultados da Petrobras, recordes no Plano
Safra e outros indicadores econômicos e sociais.
A oposição tem todo o direito de contestar
esses números, apontar problemas e apresentar outro projeto.
Isso é democracia.
Mas existe uma diferença fundamental entre
disputar um governo e colocar em risco as bases sobre as quais a própria
disputa acontece.
A história mostra que o autoritarismo
raramente chega anunciando que pretende destruir a democracia. Ele costuma
avançar por etapas: primeiro desacredita as instituições; depois coloca sob
suspeita a Justiça, a imprensa e o processo eleitoral; transforma adversários
em inimigos; e, finalmente, tenta convencer a sociedade de que medidas
excepcionais seriam necessárias para "salvar" o país.
Quando percebemos, o excepcional já virou
rotina.
Por isso, também é preciso cobrar
responsabilidade da direita brasileira. Uma democracia forte necessita de uma
oposição forte, preparada e capaz de apresentar alternativas. Quando essa
tarefa não é cumprida, abre-se espaço para lideranças que fazem da política um
exercício permanente de confronto.
E aqui está uma das maiores fragilidades do
momento brasileiro: a ausência de um debate verdadeiramente programático
sobre o futuro do país.
O Brasil precisa discutir educação, saúde,
segurança, desenvolvimento, emprego, tecnologia, infraestrutura, desigualdade e
soberania. Precisa discutir como crescer sem abandonar milhões de brasileiros.
Não pode ficar prisioneiro de uma política
baseada exclusivamente na destruição do adversário.
Também é preciso falar sobre o poder
econômico.
Empresários têm o direito de defender suas
convicções e seus interesses dentro das regras democráticas. Mas nenhum
interesse privado pode estar acima do interesse público. As empresas estatais
pertencem ao povo brasileiro. O Estado não pode ser tratado como patrimônio de
grupos políticos ou econômicos.
A democracia não pode servir apenas para
escolher quem administrará o poder. Ela precisa garantir que o poder tenha
limites.
E talvez seja justamente essa a grande questão
de 2026.
Não se trata de dizer que Lula é perfeito. Não
é. Governos devem ser fiscalizados, criticados e cobrados. Não existe
presidente acima da crítica.
Também não se trata de negar à oposição o
direito de disputar o poder. Esse direito é essencial.
A questão é outra:
qual projeto político respeitará melhor a
democracia brasileira?
Porque democracia não termina na urna.
Democracia é aceitar o resultado das eleições.
É respeitar as instituições. É garantir liberdade de imprensa e de
manifestação. É permitir que o adversário exista. É fiscalizar quem governa. É
combater a corrupção independentemente de quem esteja no poder.
E, sobretudo, é compreender que nenhum
presidente, nenhum partido, nenhum empresário e nenhuma liderança política é
dono da República.
Talvez por isso esta seja uma das eleições
mais importantes da nossa história recente.
Não porque esteja em jogo apenas quem ocupará
o Palácio do Planalto.
Está em jogo a qualidade da nossa democracia.
O Brasil não precisa escolher entre esquerda e
direita com medo. Precisa escolher com consciência.
Não precisa acreditar em tudo o que ouve.
Precisa perguntar, conferir e comparar. E este é onde entra o importante papel
da imprensa, a ela cabe apresentar os fatos reais e rápido.
Não precisa aceitar a mentira porque ela foi
repetida muitas vezes.
E não pode permitir que o autoritarismo se
torne apenas mais uma opção dentro do cardápio eleitoral.
Podemos discordar sobre quase tudo. Mas há
algo que deveria ser inegociável: a democracia.
Porque governos passam.
Presidentes passam.
Partidos passam.
Mas a República fica.
E o Brasil que deixaremos depois de 2026
dependerá, em grande medida, das escolhas que fizermos enquanto ainda temos a
liberdade de escolher.
Claudio Ramos
Estudante de Jornalismo e democrata até na alma.
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