O voto esquecido que decide o futuro do Brasil
A pesquisa Datafolha que revela que a maioria dos brasileiros não se lembra em quem votou para deputado federal, deputado estadual e senador expõe um dos maiores desafios da democracia brasileira: a pouca atenção dada às eleições para o Poder Legislativo.
Os números são impressionantes. Segundo o levantamento, 67% dos brasileiros afirmam não lembrar em quem votaram para deputado federal nas eleições de 2022. Para senador e deputado estadual, o percentual é de 66%. Em outras palavras, cerca de dois terços do eleitorado não conseguem recordar quem escolheram para ocupar cargos fundamentais na definição das leis e das políticas públicas do país.
Enquanto isso, quando o assunto é a eleição presidencial, a realidade é completamente diferente. A pesquisa mostra que 85% dos brasileiros ainda se lembram em quem votaram para presidente da República, enquanto apenas 7% afirmam não recordar sua escolha. O contraste revela uma característica marcante da cultura política brasileira: a concentração das atenções nos cargos do Executivo, enquanto o Legislativo permanece em segundo plano.
Essa desconexão ajuda a explicar parte da insatisfação recorrente da população com a política nacional. Muitos cidadãos votam em determinado projeto político para a Presidência da República ou para os governos estaduais, mas não observam se os candidatos ao Congresso Nacional e às Assembleias Legislativas compartilham das mesmas propostas ou possuem compromissos semelhantes com as políticas defendidas durante as campanhas.
Na prática, o Legislativo possui enorme influência sobre a capacidade de qualquer governo implementar seu programa. É o Congresso Nacional que aprova ou rejeita projetos de lei, altera propostas enviadas pelo Executivo, define regras orçamentárias e exerce forte poder sobre a execução das políticas públicas.
Nos últimos anos, esse protagonismo aumentou significativamente. O orçamento controlado por meio de emendas parlamentares alcança valores superiores a R$ 50 bilhões por ano, transformando deputados e senadores em atores centrais na definição dos investimentos públicos. O debate em torno das chamadas emendas impositivas e do chamado orçamento secreto revelou uma mudança importante no equilíbrio de poder entre Executivo e Legislativo, com reflexos diretos na governabilidade do país.
Ao mesmo tempo, o Congresso tem sido palco de votações que geram intensos debates na sociedade. Temas ligados à ampliação do número de deputados federais, à legislação ambiental, às políticas voltadas para o agronegócio, à tributação e aos direitos sociais mostram como as decisões parlamentares afetam diretamente a vida dos brasileiros.
Entretanto, os dados da pesquisa revelam que a maioria da população pouco acompanha quem são os responsáveis por essas decisões. O levantamento mostra que 68% dos entrevistados não conseguem citar espontaneamente o nome de nenhum deputado federal em exercício. No Senado, a situação é ainda mais preocupante: 75% dos brasileiros não conseguem mencionar sequer um senador que atualmente ocupa mandato.
Quando a população desconhece seus representantes, torna-se mais difícil acompanhar votações, cobrar compromissos assumidos em campanha e fiscalizar o exercício do mandato. O resultado é um distanciamento crescente entre eleitores e instituições legislativas.
O esquecimento é ainda maior entre as mulheres. Segundo a pesquisa, até 75% das eleitoras não lembram em quem votaram para o Senado, enquanto 74% não conseguem recordar seus votos para deputado federal e deputado estadual. O levantamento também aponta que mesmo entre eleitores identificados com partidos políticos, como o PT, cerca de sete em cada dez não conseguem lembrar os candidatos escolhidos para esses cargos.
A consequência desse comportamento eleitoral pode ser profunda. Muitas vezes, o eleitor escolhe um projeto político para governar o país, mas não dedica a mesma atenção à formação do Congresso que será responsável por aprovar, modificar ou barrar as propostas defendidas durante a campanha. O resultado pode ser a formação de maiorias parlamentares que possuem prioridades diferentes daquelas expressas nas urnas para os cargos do Executivo.
A democracia não termina quando a urna é fechada. O voto para deputado federal, deputado estadual e senador não é um detalhe secundário da eleição. Pelo contrário: ele ajuda a definir a correlação de forças que irá aprovar, modificar ou rejeitar as políticas públicas que impactam diretamente a vida da população.
Se o eleitor deseja mudanças concretas na saúde, na educação, na segurança pública, na geração de empregos ou na redução das desigualdades, precisa compreender que essas transformações dependem não apenas da escolha de presidentes e governadores, mas também da composição das casas legislativas.
A pesquisa Datafolha talvez revele algo mais profundo do que uma simples falha de memória. Ela expõe uma fragilidade da cultura democrática brasileira: a dificuldade de compreender que o Congresso Nacional, o Senado Federal e as Assembleias Legislativas possuem papel decisivo nos rumos do país.
Fortalecer a democracia exige mais do que votar. Exige acompanhar, fiscalizar, cobrar e, sobretudo, compreender que o voto para o Legislativo pode ser tão importante quanto aquele destinado aos cargos majoritários. Afinal, não basta escolher quem governa. É preciso escolher, com a mesma atenção, quem fará as leis e decidirá se o projeto escolhido pela maioria dos eleitores poderá ou não sair do papel.
Claudio Ramos
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