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| Partidos contra o fim da escala 6 X 1 |
O debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho da escala 6x1 para 5x2 ganhou força nacional após o Governo Federal assumir publicamente a defesa da matéria. A proposta, que altera o modelo tradicional de seis dias de trabalho por um de descanso para cinco dias trabalhados e dois de folga, reacendeu uma discussão histórica sobre direitos trabalhistas, produtividade e desenvolvimento econômico.
Uma pesquisa recente apontou que 73% dos brasileiros são favoráveis à redução da carga semanal. O dado revela um sentimento social consolidado: a população associa qualidade de vida à reorganização do tempo de trabalho. Em contraposição, setores empresariais reagiram de forma contundente.
Editorialmente, veículos como a Folha de S.Paulo e o O Estado de S. Paulo se posicionaram contra a proposta, argumentando possíveis impactos econômicos e aumento de custos para o setor produtivo.
No campo político, lideranças partidárias se alinharam à defesa dos empresários. O presidente do Partido Liberal, Waldemar da Costa Neto, afirmou durante evento com empresários que trabalhará para impedir a aprovação da PEC, chegando a declarar: “Vamos dar a vida para não aprovar”, com a anuência de Antônio Rueda, presidente do União Brasil.
Outro dirigente partidário que se posicionou ao lado do empresariado foi Ciro Nogueira, presidente do Progressistas. Já o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, ampliou o discurso contrário à proposta.
Em novo posicionamento, Marcos Pereira argumentou que a redução da jornada poderia expor pessoas a riscos sociais. “Vai ficar mais exposto a drogas, a jogo de azar. Pode ser o contrário, ao invés de lazer, pode ser o mal. Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou no sertão lá do Nordeste?”, questionou.
A declaração gerou forte reação por ser interpretada como preconceituosa e elitista, ao sugerir que trabalhadores de baixa renda, caso tenham mais tempo livre, estariam mais suscetíveis à criminalidade ou a comportamentos considerados desviantes. Para críticos da fala, o argumento desconsidera que lazer, convivência familiar e descanso são direitos sociais e não privilégios de classe.
O debate, no entanto, vai além da disputa entre capital e trabalho. Historicamente, setores conservadores da economia brasileira resistiram a avanços que hoje são considerados pilares da legislação trabalhista. O fim da escravidão, a criação do salário mínimo, o 13º salário e as férias remuneradas enfrentaram oposição semelhante. O argumento da inviabilidade econômica sempre foi mobilizado e repetidamente superado pelos fatos.
Especialistas apontam que a manutenção da escala 6x1 contribui para o aumento de problemas de saúde física e mental, esgotamento, baixa produtividade e dificuldades na convivência familiar. Trabalhadores relatam pouco tempo para acompanhar a vida escolar dos filhos, cuidar da saúde ou investir em qualificação profissional.
Também há críticas à narrativa de que a redução da jornada estimularia “ociosidade”. O brasileiro, majoritariamente, acorda cedo, enfrenta longos deslocamentos e jornadas extensas. Não se trata de falta de disposição para o trabalho, mas da busca por equilíbrio. Em contraste, parlamentares e membros do alto escalão político costumam cumprir rotinas intercaladas por períodos sem sessões deliberativas, o que amplia a percepção de distanciamento entre a realidade do trabalhador comum e o discurso de parte da classe política.
Com o avanço da tecnologia, automação e digitalização de processos, diversos países desenvolvidos vêm adotando modelos mais flexíveis, com redução da jornada e manutenção ou até aumento da produtividade. Estudos internacionais indicam que jornadas equilibradas tendem a gerar trabalhadores mais motivados, criativos e eficientes.
O que está em debate, portanto, não é apenas a redução de um dia de trabalho, mas o modelo de desenvolvimento que o país pretende adotar. Resistir a avanços trabalhistas sob o argumento de preservação econômica pode significar, na prática, a defesa de estruturas produtivas ultrapassadas.
A história demonstra que conquistas sociais não foram concessões espontâneas, mas resultados de embates políticos. A oposição à PEC revela, mais uma vez, a tensão entre setores que defendem a ampliação de direitos e aqueles que priorizam a lógica de maximização do lucro.
Se a tecnologia evoluiu, se a produtividade aumentou e se a maioria da população apoia a mudança, a pergunta que permanece é: a resistência é econômica ou ideológica? O debate está posto — e, como em outros momentos decisivos da história brasileira, o resultado definirá não apenas a jornada semanal, mas o próprio conceito de dignidade no trabalho.
Matéria produzida por Claudio Ramos
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