Desfile da Acadêmicos de Niterói usa carnaval para narrar a trajetória do povo brasileiro



O desfile da Acadêmicos de Niterói já passou pela avenida, mas a mensagem que ficou vai muito além do carnaval. A escola escolheu contar a história de Lula, mas, no fundo, contou a história do Brasil pobre, migrante, trabalhador, esquecido e resistente.

Quando o samba perguntou Quanto custa a fome? Quanto importa a vida?”, a pergunta ecoou como um editorial em forma de poesia. Porque o desfile lembrou que fome não é estatística, é urgência. E vida não pode ser tratada como gasto.

A narrativa que começou em Garanhuns mostrou um Brasil que muitos preferem não enxergar: o Brasil da seca, da retirada, da mãe levando os filhos nos braços em busca de sobrevivência. Isso não é passado distante, é parte da nossa identidade social.

Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro-RJ


O desfile também fez algo importante: resgatou memória. Ao citar Zuzu Angel, Henfil, Vladimir Herzog e Rubens Paiva, a escola lembrou que a democracia brasileira custou caro, custou vidas, custou resistência. E que esquecer isso é abrir caminho para repetir erros.

Outro ponto que ficou foi a ideia de mobilidade social. “Filho de pobre virando doutor, comida na mesa do trabalhador”. O samba traduziu políticas públicas em imagens simples, compreensíveis, humanas. Mostrou que o Estado pode ser ferramenta de transformação, quando decide olhar para os de baixo.

Mas o desfile também foi um manifesto político. Falou de soberania, criticou mitos, rejeitou anistias fáceis, assumiu um lado. E isso gerou debate. Alguns aplaudem, outros criticam. Mas o carnaval sempre foi isso: um espaço onde o povo fala, canta, provoca e disputa narrativas.

Talvez a frase mais poderosa que ficou seja: “Nosso sobrenome é Brasil da Silva.”
Ela lembra que o Brasil não é feito só de elites, sobrenomes tradicionais e palácios. O Brasil é feito de gente comum, de trabalhadores anônimos, de milhões de Silvas.

O desfile acabou, mas deixou uma lição clara: cultura é política, samba é discurso, carnaval é memória coletiva.
E, goste-se ou não do personagem central, a avenida mostrou que a grande questão continua sendo a mesma: que país queremos ser, e para quem ele existe.

Claudio Ramos

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