Câmara vive dia de caos e violência em sessão marcada por manobras para favorecer golpistas

 



A Câmara dos Deputados viveu, nesta terça-feira (09), um dos episódios mais tristes e turbulentos de sua história recente. O dia foi marcado por manobras regimentais, tentativas de retrocesso institucional e cenas de violência contra parlamentares e jornalistas.

Logo pela manhã, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), surpreendeu ao anunciar que colocaria em votação o projeto da dosimetria, proposta que reduz penas dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 tentativa de ruptura institucional que visava manter Jair Bolsonaro no poder mesmo após sua derrota eleitoral.

Além disso, Hugo Motta também indicou que levaria ao plenário a votação da cassação de parlamentares já condenados pelo STF, como Alexandre Ramagem, foragido nos Estados Unidos, e Carla Zambelli, que cumpre pena na Itália. Outro caso discutido nos bastidores era o do deputado carioca e filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, que só não teve o processo acelerado porque aliados aguardaram a contagem de faltas atingir o limite mínimo para evitar que ele perdesse seus direitos políticos.

No mesmo pacote estava prevista ainda a cassação do mandato do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), acusado de indisciplina. Para setores da extrema direita, o caso de Glauber era tratado com mais severidade do que o de Eduardo Bolsonaro, que abandonou o mandato e foi para os EUA causando prejuízos ao País, como taxação aos produtos que o país exporta para os EUA.



Invasão à Mesa e agressões no plenário

Ao anoitecer, o clima já era de tensão. Ciente de que seu mandato seria levado a votação, Glauber Braga subiu à Mesa Diretora e assumiu a cadeira da Presidência da Câmara em um ato de protesto. Ele declarou que não sairia, denunciando que a sessão caminhava para reduzir penas de golpistas ao mesmo tempo em que cassava um mandato oposicionista.

O que se seguiu chocou os presentes: as câmeras da TV Câmara foram desligadas, interrompendo a transmissão oficial, e policiais legislativos avançaram de forma violenta para retirar o deputado. Parlamentares relataram empurrões, agressões e abuso de autoridade.

Vale lembrar que, no segundo semestre do ano legislativo, deputados bolsonaristas ocuparam a Mesa Diretora por 48 horas, exigindo anistia para os golpistas de 8 de janeiro e nenhuma ação de força foi tomada contra eles.

Jornalistas presentes também foram expulsos do plenário com violência e relataram agressões físicas e intimidações. Alguns parlamentares e profissionais de imprensa ficaram feridos.

Revolta entre deputados e críticas diretas ao presidente da Câmara

Após o tumulto, deputados da base do governo se revezaram no plenário com discursos contundentes. O deputado líder do governo, Lindemberg Farias (PT-RJ), afirmou em alto e bom som:

“Vossa Excelência não tem mais condições de exercer a Presidência desta Casa.”

O deputado Rogério Correia (PT-MG) protestou:
“Eu não fui eleito para apanhar da segurança da Câmara.”

Outros parlamentares argumentaram que a sessão não poderia continuar diante da truculência e da quebra de ordem democrática. Ainda assim, Hugo Motta insistiu em dar prosseguimento aos trabalhos, aparentando cumprir acordo firmado com lideranças da extrema direita, do Centrão e de partidos conservadores.

Relatos indicam que presidentes de partidos participaram de reuniões reservadas para garantir a aprovação da PL da dosimetria tratada como prioridade absoluta.

A influência dos Bolsonaro e a disputa por 2026

Na última semana, Flávio Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura à Presidência da República como “representante do pai”. O gesto irritou lideranças do Centrão e da direita tradicional, que não desejam os Bolsonaro como protagonistas na eleição de 2026.

Flávio, agindo estrategicamente, deu sinais de que poderia desistir da disputa, mas “pelo preço certo”. Segundo interlocutores, esse “preço” seria justamente abrir caminho para livrar Jair Bolsonaro da prisão, impulsionando o apoio interno ao projeto da dosimetria.

A mensagem foi compreendida: a aprovação do PL passou a ser tratada como moeda política de alto valor.



A aprovação na calada da noite

Por volta da madrugada, com o plenário ainda sob clima de indignação, o projeto da dosimetria foi votado e aprovado por 291 votos a favor, 148 contra e 1 abstenção. Setenta e dois deputados estavam ausentes.

A proposta aprovada reduz penas de condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito, o que pode beneficiar não apenas os golpistas de 8 de janeiro, mas também outros criminosos enquadrados nas mesmas tipificações penais, a exemplo dos criminosos investigados nas diversas operações da PF que atinge pessoas milionárias e criminosos do crime organizado.

Juristas e entidades da sociedade civil alertam para o risco de enfraquecimento das instituições democráticas, anistia disfarçada e incentivo a novos ataques.

O que esperar de um Congresso reacionário?

O episódio expôs um Congresso fragmentado, vulnerável a pressões e disposto a aprovar medidas de impacto nacional em votações noturnas, sem transparência e contra a opinião pública.

A noite de 09/12 pode entrar para a história como um marco negativo, simbolizando:

  • ataques à liberdade de imprensa,
  • violência contra parlamentares,
  • interferência no funcionamento da TV legislativa,
  • acordos obscuros,
  • e tentativas de reescrever o passado recente para proteger golpistas.

A democracia brasileira sai ferida mais uma vez e com muitas perguntas sobre o futuro.

 

Matéria Claudio Ramos

Radialista e estudante de jornalismo

 

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