Editorial | CR NEWS MACIÇO
Durante muito tempo, o discurso político brasileiro tentou convencer a população de que a corrupção tinha lado. A realidade, porém, insiste em mostrar exatamente o contrário: quando o assunto é escândalo, investigação e suspeitas sobre o uso da máquina pública, não existe monopólio ideológico.
Os acontecimentos mais recentes envolvendo dirigentes nacionais de partidos do campo da direita reforçam essa constatação. O presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, voltou ao centro das atenções em razão das investigações sobre a destinação de emendas parlamentares. As decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que determinaram medidas cautelares para assegurar a rastreabilidade e a legalidade desses recursos, demonstram a gravidade das suspeitas levantadas pelas autoridades. Embora o devido processo legal deva ser respeitado, é inegável que episódios dessa natureza colocam em xeque o discurso de moralização frequentemente adotado por setores da própria legenda.
No Progressistas (PP), o senador Ciro Nogueira teve seu nome associado às investigações sobre as relações entre agentes políticos e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O parlamentar nega qualquer irregularidade, e cabe à Justiça estabelecer responsabilidades. Ainda assim, a simples presença de dirigentes partidários em investigações dessa dimensão representa um desgaste significativo para a credibilidade das instituições.
O mesmo ocorre com o União Brasil. Seu presidente nacional, Antônio Rueda, também aparece nas apurações relacionadas ao caso Banco Master. Novamente, vale ressaltar que investigação não significa condenação. Entretanto, quando as principais lideranças partidárias passam a frequentar inquéritos e operações policiais, o prejuízo para a confiança pública torna-se inevitável.
No Republicanos, a situação também desperta preocupação. O presidente nacional da legenda, deputado federal Euclides Pettersen, foi indiciado nas investigações que apuram o esquema de descontos ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. O parlamentar nega envolvimento e exercerá seu direito de defesa. Contudo, o fato de um dirigente nacional ser formalmente indiciado por uma investigação que envolve recursos destinados a uma parcela vulnerável da população amplia a sensação de indignação da sociedade.
O aspecto mais preocupante dessa sucessão de episódios não está apenas na situação individual de cada dirigente, mas na recorrência com que os maiores partidos brasileiros aparecem associados a investigações de grande repercussão. Isso revela um problema estrutural da política nacional.
Nos últimos anos, a direita brasileira construiu boa parte de sua identidade política sobre o combate à corrupção e a promessa de uma "nova política". Esse discurso encontrou respaldo em milhões de eleitores cansados dos escândalos que marcaram diferentes governos ao longo das últimas décadas. No entanto, quando dirigentes das legendas que mais levantaram essa bandeira passam a responder a investigações ou figuram em decisões judiciais relacionadas ao uso de recursos públicos, instala-se uma evidente contradição entre o discurso e a prática.
Naturalmente, a crítica aqui não se restringe à direita. A esquerda, o centro e todos os demais campos políticos também acumulam episódios que mancharam sua história. A corrupção não escolhe partido nem ideologia. Ela prospera sempre que faltam mecanismos eficientes de controle, transparência e responsabilidade pública.
A diferença é que quem faz da ética sua principal bandeira assume um compromisso ainda maior com a coerência. Não basta denunciar adversários. É preciso demonstrar, na prática, que os próprios dirigentes estão submetidos ao mesmo rigor ético que exigem dos demais.
O Brasil não precisa de partidos que utilizem o combate à corrupção apenas como instrumento eleitoral. Precisa de legendas que pratiquem internamente aquilo que defendem nos palanques.
Enquanto os brasileiros enfrentam dificuldades na saúde, na educação, na segurança pública e no custo de vida, parte expressiva da classe política continua ocupando espaço nos noticiários por suspeitas, investigações e escândalos. Essa não pode ser a normalidade de uma democracia madura.
O combate à corrupção não deve servir como arma de disputa política, mas como compromisso permanente de todos aqueles que exercem funções públicas. Afinal, a moralidade administrativa não possui partido, não possui ideologia e não admite seletividade. Ou vale para todos, ou deixa de ser um princípio da República.
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